segunda-feira, abril 23, 2007

war as usual

Quando decidiu pela primeira vez receber um representante dos ocupantes, em 2003, o Grande Ayatollah iraquiano Ali al-Sistani exigiu que o seu interlocutor fosse Iraquiano. Para emissário a escolha recaiu então num médico 'iraco-americano' exilado na Flórida, seleccionado pessoalmente por Paul Wolfowitz, e conhecido nos meios cientifico-empresariais por ter patenteado um sofisticado implante no pénis para casos de impotência sexual (uma escolha tão apropriada como um zézé camarinha de canudo para ir falar com o papa). Naturalmente, seguiu-se uma Fatwa contra a possibilidade da constituição ser escrita pela Autoridade Provisória da Coligação (CPA no acrónimo inglês).


Este episódio é contado por Rajiv Chandrasekaran, jornalista do Washington Post destacado no Iraque em 2003, e dá bem conta do peso em que se tinha tornado o fardo da ocupação. São anedotas rotineiras se tomadas isoladamente, mas uma tragédia na big picture de 4 anos de ocupação americana. E é precisamente como retrato do quotidiano palaciano do exercício de poder ocupante que "Imperial Life in the Emerald City" (2006) me convenceu. É que mais do que as anedotas da ocupação (e pérolas não faltam para quem quiser animar diatribes fuckamerica, como na inveja americana das caravanas fornecidas pelo IKEA aos soldados britânicos), este livro conta a história de um poder-fortaleza sitiado no seu próprio terrento --- por força do amadorismo da missão civilizacional, dos tiques ditatoriais do vice-rei Bremer, do desastre total da estrutura de ocupação --- e eventualmente aí combatido (como nos primeiros dois atentados suicidas no interior da 'cidade-esmerda', em 2004, bem anteriores ao recente ataque durante a visita do SG das NU). E lembra-nos que os éditos da Haliburton a regular a vida na zona verde, ao ponto rídiculo de proibir a posse de animais domésticos no perímetro da cidade-esmeralda, são parte integrante da história da primeira guerra de ocupação comandada no terreno por uma empresa privada.


O epílogo do livro termina com uma situação de guerra civil. De todos os neo-cons arregimentados em manada para o Iraque, Bremer foi o primeiro a desertar, de helicóptero, dois dias antes da data prevista. O seu sonho de uma democracia regulada pelo mercado livre, como conta um dos implicados, foi 'esmagado pela realidade.' Neste processo de fuga em frente, resta saber até que ponto a adminstração americana não estará a ser minada, no Iraque ou em casa (como na história dos promotores públicos despedidos recentemente) ao ponto da implosão. Ou do não retorno.
Podem ler um curto excerto do primeiro capítulo aqui.

3 comentários:

A. Cabral disse...

E' sedutoramente alucinante este desastre americano - gonzo ate. O Iraque e' a sua impossibilidade irresistivel. E por ser um acto de calculada insanidade, vou perdendo o interesse nos motivos. Agrada-me mais o relato peripatetico, a ver se leio esse livro.

Os Iraquianos e' que permanecem em misterio. Como se convive com a arbitrariedade colonial?

Carreira disse...

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O meu muito obrigado.
Com os melhores cumprimentos,
José Carreira

disse...

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