terça-feira, fevereiro 21, 2006

uindissiti kula ring

Um dia vou escrever uma antropologia dos links.

Começaria assim. Há coisa de 20 anos, uma velha senhora da antropologia americana escreveu um livro chamado The Fame of Gawa. Nancy Munn é a autora, Gawa é a ilha onde passou grande parte dos anos 70, uma ilhota que faz parte do sistema de trocas de conchas kula. A forma como este 'ring' 'funcionava' (no sentido literal da palavra, na função que o anima) foi o que Malinowski, entre outros, tentaram perceber. Concha por concha se criaria valor, o acto da dádiva e da reciprocidade a ele associado manteriam mecanicamente o sistema: "the function of these ceremonial re-payments is, on the surface of it, to thicken the social ties from which arise the obligations" (Malinowski, p. 182 versão inglesa). O que tem isto a ver com links e blogues?
Muito ou pouco. O livro de Nancy Munn inova ao propor um conceito de expansão de ciclos espacio-temporais, no qual os 'nós' relacionais implicados na troca de conchas são tão constitutivos da realidade social como as práticas sociais mais mundanas de preparar comida ou construir canoas. A sobrevivência destes ciclos - na sua expressão máxima de procura de 'Fama', por transcender matéria e corpo - é permanentemente
contestada, nas relações assimétricas que os sustentam. Hegel meets pós-estruturalismo, não podia ser mais perfeito.
Acredito que também os blogues vivem da sua fama, guardadas todas as distâncias com Gawa e Kula... (e daí talvez não, como nesta 'very rare kula ring rosewood fish bowl' à venda no ebay...). Quem escreve num blogue fá-lo na certeza de que por trás de um IP está sempre um leitor. E é animado pela ideia de que poderá chegar a outros. E por isso linka, manda uma concha para ver se chega a outras ilhas. Que o nome do meu blogue seja lido noutras paragens, diria.

Um dia vou escrever este texto, mas não é agora. Em vez disso, ligo-me ao novo projecto editorial da Sara e tento espalhar a sua fama: Imprensa Quadratim.

Kalamamata! Quadratim butu!

4 comentários:

Sara Figueiredo Costa disse...

Que surpresa... Estava eu toda entusiasmada com a história das conchas, com o Malinowski a lembrar-me umas certas aulas do primeiro ano, e afinal isto tudo era para publicitar a IMprensa Quadratim!
Agradeço a publicidade, claro, e só não mando um colar de conchas porque a net ainda não permite a trasmutação...

BEijinhos,
Sara

A. Cabral disse...

Sao estes exilios missionarios dos antropologos que me sempre surpreendem. Esta' essa senhora em Gawa nos anos 70, sinceramente, conhecendo a historia social dos EUA nesse periodo parece-me um desperdicio. Esta' o senhor Geertz na Indonesia a ver lutas de galos, e la' fora, da monografia antropoligica e dos interesses do autor, o Suharto chacina um milhao de comunistas e opositores.

Danu Blau disse...

A. Cabral, achei engraçado teres pegado nesse aspecto (passou-me a mesma coisa pela cabeça mas não o escrevi explicitamente).

como sabes, foi um momento complicado na história da antropologia. Acredito que houvesse vontade de pensar as transformações (tb violentas) que aconteciam na mesma altura (pós-independências africanas etc etc). Sò não se sabia como - e as lutas de galos foram importantes para isso.

Para além disso, antes antropólogo-missionário que economista no chile!
Abraço

A. Cabral disse...

Os missionarios como os acolitos chilenos partiam de Chicago, terra de tanta gente e tao diferente... incluindo uma das principais sedes da Students for Democratic Society.

Abraco