sábado, agosto 04, 2007

e o bacalhau chegou intacto, malgré uma inspecçãozinha dos agentes da TSA.

quando a arte choca com a segurança nacional

via NYT

Duke Riley executou esta 6a mais uma proeza anti-establishment, preparando-se para assaltar o Queen Mary 2, atracado em NY, com uma réplica do "submarino tartaruga" que se pensa ter sido usado para minar um navio inglês durante a guerra de independência. Estavam lá todos a assistir: os polícias, que prenderam Riley, e os seus galeristas e agentes -- deliciados com a publicidade gratuita (btw, o submarino estará em mostra a partir desta semana em Chelsea, NY).

Em Dead Horse Inn, Duke Riley e camaradas ocupam uma ilha em vias de desaparecer ao sul de Brooklyn para uma noite de libação e caranguejos a 5 cêntimos. Fazem-no uma vez por ano, reclamando o vazio legal em que aquela porção de terra caira até 1935, quando a barracada acabou. Mas o que me pergunto é se na paranóia colectiva do terror será ainda possível desafiar pela arte (e de que forma) "as residuais fronteiras, esquecidas e por reclamar, nos limites e confins de espaços urbanos, e a sua insuspeita autonomia" (do site de Duke Riley)? Ao jeito da "Insurrecção Internacional" do novo proletariado de Lumpen artistas?

A julgar pelo relatório da polícia, estaremos seguros: "A makeshift submarine discovered at about 10:30 this morning by an N.Y.P.D. Intelligence detective on board the Queen Mary 2 in New York Harbor is the creative craft of three adventuresome individuals. It does not pose any terrorist threat." (também publicado em zdc)

terça-feira, julho 31, 2007

US Airways no espaço aéreo europeu, não à pala da minha mala


O pior de se perder as malas em viagem não está tanto em perdê-las, mas em conseguir recuperá-las. Em menos de 4 meses, é a terceira vez que me perdem as malas -- e nenhuma delas foi com a TAAG. A primeira mala desviada andou a passear por Detroit durante uma semana, cortesia da British Airways. As duas últimas, num espaço de semanas, foram com a US Airways, com sede em Filadélfia (e junto com Newark, a única cidade americana com ligação directa a Lisboa).

De todas as companhias, a US Airways desafia a compreensão. Já perdeu a bagagem de tropas americanas a caminho do Iraque (porventura concessionada pela Halliburton), ou os patins da patinadora olímpica Sasha Cohen. Ao pé disto, a notícia sobre a US Airways da Onion ("Confusão nas bagagens leva bomba suja para St Louis") parece quase inocente.

Mas a dificuldade em recuperar as malas diz muito do desconforto destas economias volantes (pois, o petroleo, mas tambem um regime de seguranca que vai tornar impossivel o transporte de certa carga por aviao). E porque menos compensações terão que largar quanto menos tiverem que ouvir clientes sem malas, as companhias aéreas decidiram acabar com todas as linhas telefónicas de atendimento ao público da bagagem perdida. Nem um call centerzito na Índia, nada. Um papagaio electrónico que repete o que já está na internet é o melhor que se arranja.

Para conseguir recuperar as malas, o importante, já percebi, é conseguir falar com alguém, passar das máquinas para uma voz que finja compreender o meu apelido. Cada um terá as suas técnicas. Aqui há uns tempos, apanhei o numero de telemovel do tipo que entregava malas reencontradas num bairro de Chicago e parti daí na busca de alguém com quem falar. Desta vez, parti pela linha de reservas internacionais (curiosamente com atendimento americano, ao contrário das chamadas para reservas domésticas, que vão parar a call center no estrangeiro). Para a próxima já sei que existe Get Human, uma espécie de dicionário lonely planet para a matrix.

E assim vai bem, o processo de recuperação. Hoje consegui falar com a Karen e a Felicia. Não me deram o seu numero de telefone, "for security reasons". Mas consegui saber que uma das malas foi encontrada. E horas mais tarde, parece que duas já vêm a caminho. Foram só 4 dias de t-shirts do Walgreens.

sábado, julho 28, 2007

Crises de identidade I

Back home

Foram 40 horas de viagem, 2 voos cancelados e malas em parte incerta (a 3a vez num espaço de 4 meses). Hoje de manhã, de volta a casa, peguei no metro para responder em nome dos filhos da terra a perguntas de turistas perdidos. O ouvido é que demora na transição identitária -- só aos poucos me vou livrando do sonido de tuguês arrastado, que colo a conversas alheias. Durante a hora que faz o trajecto até minha casa, ainda interrompi uma conversa a perguntar se falavam português (romenos talvez?).

E quando dou por mim, apanho-me a falar "deles", "os portugueses". Ouch.

domingo, julho 15, 2007

aviso à navegação


de fininho, este blog saiu da uindissiti para ir a banhos nas bandas de Κυθηερα. Voltei a tempo de apanhar pela frente mais duas semanas de uma capital cheia de novos independentes e cidadãos: 30,000 e 20,000, respectivamente. E um novo sobrinho. Isto agora só pode tornar-se mais interessante.

sexta-feira, junho 15, 2007

uinds of good hope


Finalmente a reportagem do acontecimento social do ano, com uns 6 mesitos de atraso. Na capa do Windy City Times, semanário LGBT gratuito de Chicago, as minhas amigas recém-casadas Leigh-Ann e Kelly. E lá para o meio um tal de Fillip, from Portugal. A foto é do cabo da boa esperança. Fiquei hilariante. Vale a pena ler a reportagem da Tracy Baim.

quinta-feira, junho 14, 2007

decalage


15 Janeiro 2005 (bbc)

14 Junho 2007 (DN)

A 'notícia' reapareceu um pouco por todo o lado a 8 de Junho a partir de uma reportagem da estação local CBS 5, Califórnia. De repente toda a gente se lembrou que seria uma "bomba gay." Mas nem a isso o jornalista do DN faz referência, é mesmo um atraso de 2 anos. E mais uns dias. (links nas imagens)

terça-feira, junho 12, 2007

trotsky e as orquideas

Este post contém publicidade, e já vão perceber a quê. Mas primeiro a notícia (e desta vez não serei eu o portador da má nova, aqui já encontrarão as referências básicas ao assunto): morreu ontem Richard Rorty, filósofo americano. Não fosse ser americano e a falta de armadura analítica, Philosophy and the Mirror of Nature (1979) teria sido melhor recebido na academia americana, sobretudo em filosofia. Mas chegara Derrida, traduzido para inglês no ano anterior. Pouco importa.

Richard Rorty começou a licenciatura aqui na Universidade de Chicago logo a seguir à 2a GM. Com 15 anos. Vinha com duas obsessões na cabeça: trotsky dos pais, e as orquídeas selvagens do interior do estado de New Jersey. Em tempos de Leo Strauss, deve ter sido um pesadelo para um miúdo de 15 anos ter que defender, para depois os rejeitar e voltar a aceitar, pragmatistas como John Dewey (e não por acaso, acabaria a licenciatura em Yale). É nesta tribo pragmatista que Richard Rorty será encaixado. Mas esta história de Richard Rorty -- "Trotsky and the Wild Orchids" -- fala também do long lost engajamento filosófico. Por pouco, o pai de Richard Rorty quase acompanhou John Dewey ao México para a comissão de inquérito às acusações feitas a Trotsky (1937). Pois, Dewey e Trotsky. Richard Rorty seria novo na altura, mas ainda assim fala-nos dos trotskystas, acossados e perseguidos até nos estados unidos, que a família foi alojando durante temporadas. É destas seitas que o meu povo gosta.

Vamos então à publicidade: pediram-me para divulgar o blog do acampamento da 4a Internacional (S.U.). Este ano será em França e tendo em conta as probabilidades, será dos poucos sítios no mundo onde se poderão apanhar trotskystas e orquídeas selvagens. Aqui fica a morada.

Ousmane Sembene, cinema africano 101


Talvez por ironia da história, aquele que é considerado o primeiro filme Africano foi filmado na Côte d'Azur. La Noire de... (1966), em impecável retorno do predicamento colonial, conta a história de uma ama senegalesa tornada criada de patrões franceses, e dos dramas de viver numa Europa onde não pode pertencer. Foi o primeiro filme de um realizador africano a ser distribuido comercialmente na Europa. Ousmane Sembène, o realizador e "pai do cinema africano" , morreu este Domingo e ninguém parece ter prestado grande atenção: há 3 notícias sobre a sua morte em news.google.pt, nenhuma de fontes portuguesas (ainda não consegui encontrar uma única referência em jornais portugueses)

Para além de La Noire De, só vi Camp de Thiaroye (1988) e Faat Kiné (2000). São as histórias de um ex-veterano da 2a guerra mundial que recusara a pensão de combatente, antigo trabalhador nas docas de marselha, decidido a escrever e filmar de África à boa maneira do griot, apesar da censura e da falta de meios. O louco de Camp Thiaroye será dos personagens mais complexos da história do cinema (tanto mais que outro louco, Michael Taussig, pega nele em Mimesis and Alterity). Diop Mambety (sobretudo em 'Hienas', 1992) continua a ser o meu realizador senegalês preferido, mas Sembène é Sembène. E por isso o silêncio dos media em Portugal me faz comichão. Não sabem, inventem, não é assim?

sexta-feira, junho 01, 2007

gunter grass


Vale a pena ler este texto: Gunter Grass, no mitigating epithets allowed, explica como viveu a guerra combatendo pelas SS. Aqui (new yorker, 4 junho)

sexta-feira, abril 27, 2007

O nongoloza, em nome de quem andei durante uns tempos por aí, morreu. A nova versão-não-beta do blogger não deve gostar de múltiplas personalidades, e algures entre entrar como nongoloza e mudar o email, matei-o. E agora ando agarrado a este fc.

segunda-feira, abril 23, 2007

war as usual

Quando decidiu pela primeira vez receber um representante dos ocupantes, em 2003, o Grande Ayatollah iraquiano Ali al-Sistani exigiu que o seu interlocutor fosse Iraquiano. Para emissário a escolha recaiu então num médico 'iraco-americano' exilado na Flórida, seleccionado pessoalmente por Paul Wolfowitz, e conhecido nos meios cientifico-empresariais por ter patenteado um sofisticado implante no pénis para casos de impotência sexual (uma escolha tão apropriada como um zézé camarinha de canudo para ir falar com o papa). Naturalmente, seguiu-se uma Fatwa contra a possibilidade da constituição ser escrita pela Autoridade Provisória da Coligação (CPA no acrónimo inglês).


Este episódio é contado por Rajiv Chandrasekaran, jornalista do Washington Post destacado no Iraque em 2003, e dá bem conta do peso em que se tinha tornado o fardo da ocupação. São anedotas rotineiras se tomadas isoladamente, mas uma tragédia na big picture de 4 anos de ocupação americana. E é precisamente como retrato do quotidiano palaciano do exercício de poder ocupante que "Imperial Life in the Emerald City" (2006) me convenceu. É que mais do que as anedotas da ocupação (e pérolas não faltam para quem quiser animar diatribes fuckamerica, como na inveja americana das caravanas fornecidas pelo IKEA aos soldados britânicos), este livro conta a história de um poder-fortaleza sitiado no seu próprio terrento --- por força do amadorismo da missão civilizacional, dos tiques ditatoriais do vice-rei Bremer, do desastre total da estrutura de ocupação --- e eventualmente aí combatido (como nos primeiros dois atentados suicidas no interior da 'cidade-esmerda', em 2004, bem anteriores ao recente ataque durante a visita do SG das NU). E lembra-nos que os éditos da Haliburton a regular a vida na zona verde, ao ponto rídiculo de proibir a posse de animais domésticos no perímetro da cidade-esmeralda, são parte integrante da história da primeira guerra de ocupação comandada no terreno por uma empresa privada.


O epílogo do livro termina com uma situação de guerra civil. De todos os neo-cons arregimentados em manada para o Iraque, Bremer foi o primeiro a desertar, de helicóptero, dois dias antes da data prevista. O seu sonho de uma democracia regulada pelo mercado livre, como conta um dos implicados, foi 'esmagado pela realidade.' Neste processo de fuga em frente, resta saber até que ponto a adminstração americana não estará a ser minada, no Iraque ou em casa (como na história dos promotores públicos despedidos recentemente) ao ponto da implosão. Ou do não retorno.
Podem ler um curto excerto do primeiro capítulo aqui.

sábado, abril 21, 2007

recebido no correio

actualização: o kinkster, de seu nome leon, tem sítio com 'rope bondage tutorial.'


Hi Vita,

We're lucky to have an experienced kinkster coming tomorrow to give a lecture and interactive demonstration on rope bondage. We'll be in the BARS room in Bartlett at 6:30. Free dinner from the Snail will be served.

Hope to see a bunch of you there!

Steph

p.s. Feel free to forward to friends.

quinta-feira, abril 19, 2007

Frank's wild years

Os últimos caixotes da tralha abandalhada no jardim foram retirados hoje. E com este fiozinho pesado o meu antigo vizinho Frank desprende-se. Mas fico com os seus quatro anos selvagens, labutados num velho compaq que a neve tinha escondido e um 'trajan' horse tinha tentado piratear. Os dramas com a Nikki, os vícios e os dramas banais de um velho a viver da segurança social nos estados unidos, está tudo no seu diário, felizmente impresso em papel para citações à polícia que lhe batia em casa. A história não tem final feliz. E por causa disso empanquei nela durante muito tempo. Talvez um dia volte à história do Frank, quando os guiões de filmes porn só forem inocentes devaneios de um velho que decidiu queimar a vida. Parou de escrever dois meses antes de eu aparecer, exactamente 10 anos depois do disco de Tom Waits, Franks Wild Years, ter passado a peça de teatro com estreia em Chicago. A história dos anos selvagens do Frank, em Operatchi Romantico in Two Acts, já estava contada.



One night Frank was on his way home


from work, stopped at the liquor store,


picked up a couple Mickey's Big Mouths


drank 'em in the car on his way


to the Shell station, he got a gallon of


gas in a can, drove home, doused


everything in the house, torched it,


parked across the street, laughing,


watching it burn, all Halloween


orange and chimney red then


Frank put on a top forty station


got on the Hollywood Freeway


headed north



(a música está aqui)
Para apaparicar quem por aqui foi passando, Yesterday is Here (mp3) e Frank's Theme(mp3) do álbum de Tom Waits, Frank's Wild Years.

segunda-feira, abril 16, 2007

America at a crossroads

Este documentário da PBS estreou no Domingo e merece ser visto e posto a circular. O clip é retirado do terceiro episódio -- Operation Homecoming, a guerra pelas palavras de quem a faz Mais informação aqui pbs.crossroads e aqui Crossroads.Youtube.