sexta-feira, junho 02, 2006

burocrantropologia

O (ou A?) IRB (Institutional Review Board) é um mecanismo que certifica o tratamento ético de indivíduos sujeitos a experiências (das ciências médicas a ciências sociais e comportamentais). A história que costumam contar acerca da origem do IRB (e podiam ser outras, como experiências com choques eléctricos ou o tratamento de prisioneiros de guerra) é a de um investigador dos anos 60 que fez um estudo sobre sexo em casas-de-banho públicas. Pois bem. Este senhor decidiu fotografar as matrículas dos carros estacionados em locais conhecidos por essas práticas e usar essa informação para obter o registo de residência. Mais tarde, bateu à porta de casas de respeitáveis famílias (estávamos nos anos 60) para perguntar uma coisita ou outra aos pais de família sobre o que andavam a fazer.


Hoje em dia, o (a) IRB é a autoridade que autoriza pesquisas que envolvam "subject participation". Um carimbo do IRB é condição sine qua non se um investigador tiver pretensões de publicar os seus resultados. Claro que o IRB tem vários problemas: o mais óbvio é que não contempla o impacto de peças 'jornalísticas' pouco preocupadas com questões éticas (este é um bom exemplo); depois, lê o mundo de acordo com uma grelha tipicamente americana (a raça dos sujeitos que vou entrevistar em Angola, por exemplo. É engraçado apanhar com esta pergunta hoje, no dia em que acabei um curso que abordou este assunto. A minha resposta: "Angolan citizens"); e por fim, é uma seca para preencher.


Estou há horas à volta do processo que vou apresentar para a minha pesquisa em Angola e chateia-me o desfasamento entre o tipo de questões que me colocam e aquilo que são as preocupações das "sujeitos com quem vou interagir". Deve ser o preço a pagar pelo reconhecimento da antropologia como "disciplina científica". Mas é também a ironia destes tempos: a antropologia só é 'ciência' nestes momentos de confronto com a burocracia académica. Ainda recentemente, quando estava em debate o fim do apoio da National Science Foundation à antropologia, todos os poetas pós-modernos vieram à rua gritar que a antropologia era, sim senhor, uma Ciência, com C grande à la Comte.

imagem: "Angolan Dilemma"

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