quinta-feira, março 09, 2006

quando a mão invisível se torna luva gucci...

...isso é pós-fordismo.

Acabei de ler hoje o Reclaiming Work (na tradução inglesa) do André Gorz. Entre a cheap philosophy (selling one's work, sale of self...) e o jornalismo de especulação há uns dados curiosos.

Aqui ficam alguns clichés para impressionar gente finamente progressista numa qualquer cocktail-party:

Você sabia que - A Ford factura hoje mais na divisão não-produtiva (de especulação financeira) do que na linha tradicional de manufactura, i.e., faz mais dinheiro se não produzir.
Não me diga. Mas olhe que - um CEO norte-americano ganha em média mais 187 vezes que um blue ou white-collar.
E digo-lhe mais - os 14 membros da administração da nike ganhavam o equivalente a 18.000 trabalhadoras Filipinas.
Mas também é verdade que - das 37.000 multi-corporações que controlam 40% do comércio mundial e 1/3 da produção quantificável, 370 (1%) controlam 50% dos recursos financeiros.
E o que me diz disto? - 6 mega-instituições bancárias controlam 90% das operações financeiras
Verdade?
Sim, relatório da UNCTAD de 1994
Passe-me esse canapé por favor.

5 comentários:

Miguel Caetano disse...

Começei a ler "The Rise of The Creative Class" do Richard Florida. O livro, de 2002, é um autêntico mantra da classe criativa AKA analistas simbólicos AKA trabalhadores do conhecimento AKA trabalhadores imateriais: programadores, artistas, cientistas, designers, etc.

Segundo as contas do Florida, são já 38 milhões de americanos a fazer parte dessa classe. Mas o autor embarca um bocado na auto-congratulação liberal dessa classe criativa. Tratando-os como uma elite, esquece-se que maior parte dessas pessoas ganham mal e porcamente, são muitas vezes precários e não têm qualquer estabilidade.

A retórica da flexibilidade de horários, famílias não-nuclerares, cubículos cool ou mesmo teletrabalho apenas serve para esconder as condições de exploração a que essas pessoas são subjugadas. Para além do mais, o conceito de trabalho criativo é algo muito subjectivo...

A. Cabral disse...

Ate finais da decada de 90 seguiram-se estudos, uma boa parte de proveniencia associada ao Bourdieu, que denunciavam uma tendencia para a agudizacao desta disparidade. Mas trabalho deste feito no seculo XXI ainda nao o vi, estou de vista turva ou nao existe? (Nao leio os relatorios da UNCTAD, talvez ai?)

Danu Blau disse...

Miguel, The coming of Post-industrial society, do Daniel Bell, tem uma aproximação semelhante - na transição de 'economizing' para 'socializing modes'. As universidades e os centros de saber seriam os grandes pólos de actividade capitalista, e estou a ser grosseiro aqui. Claro que o livro é de 1973, e por isso o 'social forecasting' tem limites. Mas a crítica que fazes parece-me a fundamental, e não sei se a saída que o Gorz propõe será a correcta. Tudo bem que o fordismo não volta, mas daí a afirmar que a wage-based society está a acabar...

A. Cabral, conheces este livro do R. FLorida? Eu também devo andar de vista turva, só conheço trabalhos muito parcelares. E claro, coisas antropológicas: sabes como é, sempre na crista da onda. Então quando capitalismo meets 'occult economies'...Seriously, têm aparecido umas coisas interessantes. Os Comaroff, com quem trabalho aqui, têm publicado umas coisas sobre o assunto (millenial capitalism and the culture of neo-liberalism; first thoughts on a second coming; e por aí). Se alguém tiver curiosidade posso mandar uns PDFs.

De resto, temos os clássicos...

Miguel Caetano disse...

Danu:

Miguel, The coming of Post-industrial society, do Daniel Bell, tem uma aproximação semelhante

Yep, o Florida refere o Bell várias vezes. Apesar de tocar quase no campo da Business Literature, o livro está academicamente muito completo e é bastante interdisciplinar. Não é nada "management porno" ;-)

Se estás interessado em Economia "pirata", vê este blog brasuca. Cuidado que é difícil compreender a linguagem do Tupi ;-):

Se estás interessado em economia solidária numa perspectiva mais teórica, tens a wiki da PeerToPeer Foundation do Michel Bauwens, um belga que está a viver na Tailândia. Ele abarca em P2P tudo o que esteja relacionado com cooperação & colaboração: partilha online de ficheiros, economia solidária e cooperativas, moeda open-source, democracia participativa, movimentos sociais, espiritualidade, etc

A newsletter da P2P Foundation está recheada de recursos: . Existe também um blog.Para quem estiver interessado pode ler o ensaio do Michel, "The Political Economy of Peer Production, na Ctheory.

Mais referências sobre trabalho "imaterial":

"The Laws of Cool - Knowledge Work and The Culture of Information" de Alan Liu (University of Chicago Press)
&
"A Hacker Manifesto" de McKenzie Wark (Harvard UP)

A. Cabral disse...

Perto de mim vai haver uma conferencia sobre Immaterial Labour (espera-se uma visita do Negri), mas pouco ou nada sei sobre o assunto. Os pasquins que leio acham a discussao muito "imaterial", uma fantasia dos anos 90 que a crise economica de 2000-2004 teria desmascarado. Mas talvez haja aqui uma misturada entre a "New Economy" e a discussao que voces estao a ter aqui.

Que venham esses pdfs, o disco rigido esta ainda espacoso...