segunda-feira, março 06, 2006

a propósito do 'pesadelo de darwin'

Um avião russo aterra num aeroporto desolador, nas margens do lago Vitória. O sistema de comunicação já não trabalha: em caso de dúvida, o controlador aéreo usa uma lanterna de três cores diferentes: luz verde para 'ok', amarela para 'stand-by' e uma vermelha se a aterragem for recusada. Da janela da 'torre' vêem-se ainda as carcaças de velhos aviões, relíquias de antigos desastres. Começa assim o 'pesadelo de Darwin', um documentário filmado na Tanzânia a partir de Mwanza, um dos maiores portos do lago Vitória. É daqui que todos os dias levantam voo cerca de 500 toneladas de peixe, capazes de alimentar 2 milhões de pessoas nos mercados europeus. Por dia.

Ainda estou a pensar sobre o que achar deste filme. É que se por um lado me parece importante dar a conhecer os problemas desta localidade pesqueira da Tanzânia (ou será do lago?), por outro estou cansado destes retratos típicos do afro-pessimismo militante: um lago infestado com uma espécie de predadores estranha ao ecossistema local (perca do Nilo), relações sociais curto-circuitadas pela SIDA, a história já gasta de pobreza, fome e miúdos de rua agarrados à cola. O pesadelo sobrepõe-se a Darwin e as escorregadelas no darwinismo social são constantes. Nem por acaso o realizador vê-se 'filming in the Heart of Darkness' (do site oficial do filme).

O lago Vitória visto do espaço
Tiraria o meu chapéu, se o tivesse, à pertinência do(s) tema(s): a ameaça ecológica, a que as elites locais e europeias respondem com o valor do mercado; o problema da SIDA (sobretudo em algumas das 3.000 ilhas do lago, conhecidas como 'working colonies'), que os missionários locais teimam em ignorar; ou o rumor de contrabando de armas nos aviões russos. Mas pergunto-me: o que retém o espectador deste patchwork de problemas? O pesadelo. Não vale a pena discutir que a guerra em Angola já acabou (um espectro que paira durante o filme, num hipotético contrabando de armas) ou que a perca do nilo está actualmente a ser combatida. E este é o pior pesadelo, aquele que não passa quando acordamos.

E já que não se fala de outra coisa, este documentário perdeu o óscar para um filme sobre pinguins (o que só de si bastaria para desmontar esse dogma pateta de que Hollywood se tornou uma espécie de vanguarda de causas progressistas).

Uma nota final (a pensar no meu Verão e noutros pesadelos).

O grupo De Beers está a voltar em força a Angola, e à Lunda-norte em particular. Encomendaram recentemente uma máquina LDD (elephant large diameter drillling) e, surpresa das surpresas, vai ser levada num "Russian made cargo plane. This type of aircraft was the choice as it can land at the Saurimo strip in Angola"(notícia de 27/2/06). Depois de chegar a acordo com o governo angolano (Junho de 2005), a De Beers está neste momento a fotografar do ar todos os vestígios de depósitos aluviais, na tentativa de combater a extracção ilegal de diamantes (para os curiosos destas coisas, vale a pena ler o trabalho do antropólogo belga Filip de Boeck). Angola é neste momento o 4º maior produtor do mundo de diamantes e esta indústria vale 95% no total de exportações não-petrolíferas (relatório FMI, Abril 2005). Porque raio não se fala disto na imprensa portuguesa? Será que vão esperar para que se comece a falar do novo filme ('Blood Diamonds') do Di Caprio, actualmente em rodagem na cidade do cabo e em Maputo?

4 comentários:

A. Cabral disse...

Se esta narrativa te cansa que outras conheces?

Acho muito estranha a referencia ao Heart of Darkness. O livro e' feito na voz e intimidade do vistante ocidental que ve a Africa colonial como um impossivel pesadelo. A voz do documentario nao deveria ser africana? O pesadelo nao devia ser africano em vez de europeu?

Para acabar, deixo acto de contricao por ter tido esperanca que os oscares este ano atentassem algum progressismo, lamentavelmente a mesma merda espectacular.

Danu Blau disse...

o principio esperanca, A. Cabral. Olhar para esta gente e estes sitios sabendo que ha um futuro espreitando para la da politica da morte.

Danu Blau disse...

em relação ao coração das trevas. Dizes:
"O livro e' feito na voz e intimidade do vistante ocidental que ve a Africa colonial como um impossivel pesadelo."

O problema está mesmo aí: o pesadelo continua...

A. Cabral disse...

Vou tentar ver o filme ja que me parece que ainda nao parou por estas bandas...