terça-feira, março 28, 2006

na loja de recuerdos do Elvis, Graceland

Em cruz ilhadas

Perspectivas há muitas. À saída de Illinois uma gigantesca cruz de 30 metros, plantada à beira da 'interstate' 57, saúda os automobilistas que entram no Missouri. Daqui só se vai para sul, primeiro no Missouri e no Arkansas de seguida, para desembocar finalmente em Memphis, Tennessee. Aquela cruz simboliza na paisagem a fronteira do sul. Mas uma viagem ao sul tem tanto de estranho como contraditório. É que, tal como se entra no Bible Belt saudado pela cruz de cristo, também se chega ao Illinois – um estado ‘azul’, ‘democracta’, ‘industrial’ e ‘progressivo’, numa palavra, ‘moderno’ -- saudado pela mesma cruz. Basta vir em sentido contrário.

É por estas e por outras que tenho hesitado em escrever sobre esta viagem, para lá do que escrevo para mim. Por muito que não leve a sério o que escrevo por aqui, há algum sentido no pavor que a antropologia sente das narrativas estereotipadas. Como wanna-be antropólogo não estou safo disso.

Se só servir para confirmar os nossos piores pesadelos sobre a civilização americana, uma viagem ao sul dos estados unidos pode ser uma desilusão (sim, há gordos, sim há cristãos fundamentalistas, mas onde não os há?). Mas ao mesmo tempo é uma viagem desconcertante. Está lá tudo, mas também está algo mais. É no tentar perceber esse algo mais que uma viagem ao Tennessee e Alabama se pode tornar interessante. Sem pretensões de tentar perceber como ou porquê é que o Bush foi eleito (ou não, lá está, tudo depende da perspectiva).

Evidentemente, isso não se faz em três ou quatro dias, e sobretudo sem ir ao Texas – um estado grande para caramba onde as contradições ‘do sul’ são muito mais agudas. Por isso vou mandar por aqui os postais que deveriam ter seguido pelo correio. Para usar chavão pós-moderno, estas historietas são sujeitas à contingência da minha experiência. Voilà, estão avisados.

2 comentários:

Sara Figueiredo Costa disse...

Pela parte que me toca, saúdo a publicação das tais 'historietas' e fico já à espera da próxima. Há poucas leituras que me entusiasmem de modo tão instantâneo como as impressões de viagem que conseguem fugir ao discurso habitual das impressões de viagem.

Beijinhos!

ananiananão disse...

cá ficamos então à espera desses "postais"...