quinta-feira, março 30, 2006

Lorraine Motel

Postal da América I.
As aparências enganam. Atravessando o Mississipi pela ponte velha da cidade, Memphis parece uma cidade pequena e com uma indústria decadente. Na realidade, tem uma população semelhante à de Lisboa-cidade e o aeroporto mais movimentado do mundo em termos de carga (a Fedex tem aqui o hub principal). Se as estatísticas dizem que a cidade tem mais de 60% de afro-americanos, na downtown só se vêem brancos (wiki). É costume dizer que foi aqui que o Rock & Roll nasceu, algures no Sun Studio e da fusão dos blues com a country music. Apesar do revival Walk the Line, tipos como Roy Orbison, Johnny Cash, Elvis e Jerry Lee Lewis são agora réplicas desse passado, e os principais estúdios do Tennessee estão em Nashville.

Há logo pequenas subtilezas que dão a entender que se está no sul. Na principal rua da baixa, é permitido beber ao ar livre com copos de plástico. Os frequentadores do bairro alto estariam em casa, mas aqui nos states nunca tinha visto tal coisa. Nos bares de downtown joga-se poker. Na casa-de-banho do primeiro diner gordurento a que fui comer vendiam-se cigarros, cremes e revistas pornográficas, tudo gerido por um senhor simpático que colocava um toalhete de papel ao ombro. Precariedade oblige.

E depois há esta coisa que me anda a intrigar há algum tempo. Como saberão, foi no Lorraine motel que Martin Luther King foi assassinado, quando visitava a cidade em apoio à greve dos lixeiros de Memphis de 1968. O hotel foi entretanto transformado no final da década de 80 no museu nacional dos direitos civis. Bastante informativo e pedagógico, grupos de escola, keeping the dream alive. Ou talvez não. Na mesma rua do museu, mas afastada da porta de entrada, esta mulher - Jacqueline Smith - cumpre o sit-in mais longo de que há memória: 18 anos. Foi a última habitante do hotel, tendo sido expulsa quando avançaram os planos de construção do museu, animando uma campanha de boicote ao museu, argumentando que o hotel deveria estar ao serviço dos pobres da cidade. Valerá a pena, 18 anos? Até o site de apoio deixou de ser actualizado ao 14º ano. Será isto manter o sonho vivo ou deixá-lo definhar? Não seria a sua inacreditável determinação melhor posta noutras campanhas, noutros projectos? Imaginem: eu tinha 8 anos quando ela estacionou à porta do museu, todo o santo dia, chova ou faça sol. Gente rija assim já não se faz.
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