segunda-feira, fevereiro 06, 2006

poder casar para poder divorciar

Uma tal de Rita Lobo Xavier (professora da Fac. direito na Univ. Católica) publica hoje no público um artigo de opinão muito tolerante intitulado "Porque duas pessoas do mesmo sexo não podem casar-se". A argumentação é conhecida: Lobo Xavier divide o mundo entre mulheres e homens, que a natureza manda que se casem entre si. Nada a dizer para além disto - a família acima da constituição, o direito da família acima do direito de igualdade consagrado constitucionalmente.

O que me espanta mesmo é a cobertura 'académica'. Fala a especialista em direito da família, não a conservadora que participa em conferências organizadas pelo Partido Popular (como esta, 'Deus e a Europa: um legado fundador'; ou ainda aqui, em referência-cristianismo, info PP no P.E.); falou a académica, não a autora de um artigo publicado no Público a 7 de Março de 2004 ('Homessexualidade e adopção: rigor na polémica), que dizia isto: "Não deixa de ser surpreendente o anátema contra quem, a este propósito, utiliza os conceitos de 'natural' ou de 'normal', quando é certo que são exactamente esses os conceitos que figuram na constituição e na lei" (!!!!).

Quando a fachada académica - ou qualquer outra - é usada para cobrir a sua agenda conservadora, reaccionária e fundamentalista, a única coisa que se pode pedir a Rita Lobo Xavier é: saia do armário.

9 comentários:

A. Cabral disse...

Estou seguro que no pulpito da Faculdade de Direito a Professora Lobo Xavier nao e' menos reaccionaria. Talvez com moralidade vestida como deontologia e constitucionalismo, as paredes da academia sao finas.

João disse...

Lobos xavier, Têtês e Césares das Neves, unidos numa luta só: a do conservadorismo absurdo e violento! Com descaramento,passei este post para o blog das Panteras, em medida de economia de esforços e argumentos.

Samir Machel disse...

No bitoque há também dois textos interessantes sobre a contribuição de uma outra put chamada Alexandra Teté.

Permitam-me também umas considerações sobre o conceito de família destes senhores. Para eles, família é onde se pode gerar e criar filhos. Segundo Teté:

"O casamento é uma instituição reconhecida pela sociedade como fundamental por ser o lugar natural da geração, formação da personalidade e educação das crianças. É a fonte primária do capital social. É por serem socialmente valiosos que o Estado regula e protege o casamento e a família (heterossexual monogâmica)".

Segundo esta definição recomendava que deixe-se de incluir os casais inférteis, incapazes de serem utéis à sociedade. A seguir os pais de deficientes, que sobrecarregam o Estado e a sociedade. E por ai fora...

Assim seria coerente uma sociedade eficente onde os afectos não são tidos nem achados...

do contra porque sim! disse...

Eu acho bem. Que grande porcaria!

Anónimo disse...

as faculdades de direito sempre foram do mais reaccionário. Então a da católica...

Danu Blau disse...

Joao, estas 'a vontade em usar o texto.
O caso da Tete, samir, e' igualmente grotesco - e o post de que falas vale a pena ser relido.

A. Cabral: talvez a RLX seja igualmente reaccionaria nas aulas, mas ai so esta quem quer... O que me faz confusao mesmo e' a capa da professora doutora para 'ensinar' estas barbaridades. Desde Montaigne que 'natureza' e a lei caminham separadas, nao vale a pena andar para tras.

Uma comparacao perfeita sao os 'cientistas' que defendem a tese do inteligent design. Estas coisas devem ser chamadas pelo que sao: banha da cobra.

A. Cabral disse...

Danu,

Nao discordo, que se lhes negue a credibilidade que querem fabricar com o manuseio do titulo academico. Mas tambem ajudava que a ciencia (mesmo a que o consenso sanciona) descesse do seu pedestral como algo de pureza nao-social e nao-politica.

Danu Blau disse...

a. cabral, percebi o teu ponto e tens razão. Não entendo que, enquanto académico, te tenhas que despir do que pensas enquanto sujeito 'político' (é sempre bom ouvir falar o Vale de Almeida enquanto antropólogo, por exemplo).

Mas mantenho o meu ponto, que na verdade são dois: 1) a jurisprudência de RLX é de bradar aos céus (natureza inscrita na lei?!); 2) ela publica o artigo no público enquanto académica e não pelo que de político defende. É essa clarificação que eu julgo ser importante. Dizer de onde vens para sabermos onde vais.

nellie disse...

inclui a ferreira leite.a sua entrevista dá-nos autenticas pérolas de imbecilidade.