segunda-feira, fevereiro 27, 2006

democracia virtual II

(cont.)

A internet não é igual para todos

projecção do tráfego entre países em arco

Contava como o meu servidor me levou a interessar pela cartografia da net (e do ciber-espaço em geral). Comecei a dar-me conta que por ser um espaço negociado por origem e destino de IP's, não há acordo quanto ao melhor modelo para a representar; por ser tão espartilhada, a internet torna-se também um espaço visualmente interessante.
E a verdade é que muita gente está neste momento a pensar qual será a melhor maneira de representar este mundo, sabendo que na normalização da representação cartográfica da net está também a estabilização da forma como ela 'funciona'. E por isso a 'cartografia da rede' se torna um debate relevante.


the Great Firewall of China

Já mais recentemente pus-me a pensar na 'democraticidade' da internet, na igualdade 'horizontal' que pressuporia. E até que me convençam do contrário a internet é profundamente desigualitária. Não há uma internet, objecto igual para todos. Precisamente o oposto do chavão mais velho da história da tecnologia recente: "a internet trouxe o mundo mais próximo".
A realidade é que o mundo mais próximo ficou mais próximo ainda e o que já estava longe afastou-se ainda mais. Exactamente o contrário do que é senso comum achar. Mas ao contrário da 'Globalização', a internet não produz mas reproduz a desigualdade em que assenta. A periferia continuará periférica se não sair de google.pt.

mapa tele-geofráfico da Europa
(a grande muralha lusitana?)

É isto que é interessante nestes mapas (sobretudo aqueles que ensaiam uma aproximação mais realista, como este, baseado em circuites terrestres): sendo a representação da superfície, não deixam de ser um espelho da desigualdade em que assenta a internet - sobretudo para quem não a tem. Aqui há uns tempos alguém dizia que ter internet era como ter electricidade: "ninguém pergunta se tens luz em casa". Era bom que isso fosse verdade. É que nem toda a gente lê o NYtimes. E por isso é importante linkar.

Estes e outros mapas (seguindo diferentes paradigmas de projecção cartográfica) estão disponíveis nos seguintes recursos da 'topologia' da net.

http://mappa.mundi.net/maps/
http://www.caida.org/ (coop assoc for internet data analysis)
http://www.cybergeography.org/atlas/topology.html
the internet mapping project

As possibilidades de representação da net são ilimitadas. Cada site pode ter o seu próprio mapa, como alguns blogs fazem identificando o local de origem dos IP's. Ñesse registo, o museu guggenheim propõe uns modelos meios estranhos http://cyberatlas.guggenheim.org/

A wikipedia já tem o seu (versão topológica e wired)




3 comentários:

pr_republica disse...

Não me importava nada de pendurar um destes mapas-geofrá(quê?) numa parede lá de casa... especialmente este último. Levo dois! Por favor, embrulhe.

Miguel Caetano disse...

Esses mapas são muito engraçados e bonitos, mas representam acontecimentos reais, que têm consequências não só na economia, mas na cultura e no Direito.

Grande parte do fluxo de dados actual deve-se às redes PeerToPeer (P2P) - eDonkey, BitTorrent, Gnutella2. Aquilo são autênticas torneiras que jorram informação 24 horas a dia - dezenas ou mesmo centenas de milhões de pessoas ligadas simultaneamente que trocam os seus ficheiros entre completos estranhos, ficheiros esses que são indexados em enormes servidores como o Razorback2, que foi recentemente caçado pelos polícias belgas e suiços, a mando da MPAA. Gostava de saber qual teria sido o efeito do fim desse servidor no tráfego de dados na rede...

Seja como for, a necessidade de grandes servidores para redes P2P é cada vez menor. O futuro é mesmo client2client.

Mas os limites impostos pelos ISPs são cada vez mais pesados. E isso influencia bastante o cenário do fluxo de - e acesso à - informação online. Já não falo na distinção entre tráfefo nacional e internacional - uma saloíce portuguesa que constrange o desenvolvimento cultural e tecnológico de um país -, mas o que se vai passar no futuro é que um utilizador poderá dispor de uma largura de banda extraordinária, mas apenas para downloads e com um limite de tráfego rídiculo.

Nesse aspecto, a França tem uma das políticas de Internet mais saudáveis do mundo. Não só os ISPs não impôem limite de tráfego como está prestes a ser aprovada uma lei na Assembleia que permitirá o download de músicas, vídeos, etc. sem limites desde que o utilizador se disponha a pagar cinco euros por mês - uma verba que será canalizada para retribuir os artistas. A MPAA e a RIAA locais é que ficaram todas chateadas...

Danu Blau disse...

Miguel,

epá, eu sou um leigo nestas coisas, tens que ir com calma: MPAA? RIAA? What?

mas tens razão, e foi isso que tentei mostrar: por mto interessantes que sejam estes mapas, estamos a falar de um conjunto de fenomenos com implicacoes reais.
O que me assusta realmente (e olhando para o umbigo por um segundo) é o panorama de tráfego nacional. O limite de que falas (um absurdo) é parte da explicação, mas a verdade é que a utilização da net em PT é muito limitada.

não sei se a França terá o melhor modelo - nos motins de paris tentaram fechar uma série de blogs, mas a verdade é que o mundo não acaba em .fr. E depois a história do 'Quaero' faz-me comichão.

Devias escrever de vez em quando um textinho sobre estas coisas, tipo contribuição itálica - postava-o aqui.
Até logo