terça-feira, fevereiro 28, 2006

democracia na américa

O campus e a liberdade de expressão

1.
'Zézé camarinha' meets 'o meu pipi'. Não arranjo melhor maneira para descrever Tucker Max, blogger misógeno e homófobo com o benefício da dúvida de escrever histórias interessantes sobre sexo num contexto de censura moral e religiosa. O seu momento de fama aconteceu quando foi acusado pela Miss Vermont de violar os seus direitos de imagem. Ao contrário de outros blogues-que-viraram-livros, Tucker Max retirou o seu blog da net assim que o livro foi editado, o que só me parece lógico se quer vender algo que estava online de graça (não fosse ele formado na UofC...)
Voltou este fim-de-semana ao campus para apresentar o novo livro ('I hope they have beer in hell'; houve sururu pela palavra 'beer' constar nos cartazes da universidade). A revista que o convidou organizou um protesto 'feminista' contra o próprio convidado. O artigo sobre a 'talk' que deu hoje no campus acaba assim:

“When I went to have my picture taken with him, I think his hand ended up on my butt,” [Andrea] Goldstein said. “That’s really classy right there". (artigo aqui)
2.
Quatro estudantes da universidade foram presos a semana passada. [actualização: um dos estudantes detido tem a história online] Protestavam contra a presença de marines em recrutamento no campus (uma banca com 2 marines num dos edifícios da universidade). Pelo que li os estudantes terão simulado uma banca da 'juventude nazi americana', usando suásticas e 'mimicando' os marines. A berraria e o circo instalados no Reynolds club (o edifício das 'actividades estudantis') levou alguém a chamar a "polícia da universidade". Ficaram detidos por umas horas.
“The Nazi imagery drowned out the rest of their message,” said Hillel’s Rabbi David Rosenberg, who also witnessed the protest. “The fact that several of them were Jewish does not change the fact that their medium was highly inappropriate: Whether we like it or not, the swastika has become an icon of Nazism,” Rosenberg said. (artigo completo aqui)
O que raio faria um rabi (blogger, by the way) no Reynolds club? Nem ideia.

3.
Aqui há uns tempos, o David Harvey veio apresentar à universidade o seu último livro (breve história do neo-liberalismo). Poucas vezes vi um discurso tão certeiro: David Harvey começou por se dirigir à casa dos 'chicago boys', e daí passou para o Chile e do Chile passou para a imposição de propinas na CUNY, e daí em diante. Foi um bom comício, o discurso certo no momento certo. A torre de marfim espreitava finalmente da sua troeira.
Há quem diga que a esquerda radical americana se refugiou na academia a partir dos anos 70. Desconfio sempre destas generalizações, mas às vezes pergunto-me se seria possível fazer a história do pós-modernismo nas ciências sociais a partir do pessimismo militante desta geração. Do que sei, a dinâmica activista-liberal nunca foi muito forte entre os estudantes da universidade (vi uma vez uma curta-metragem chamada 'Escape from Hyde Park', feita nos anos 70 por estudantes da UofC), o que explicará em parte como 4 estudantes são detidos sem grande repercussão em termos de mobilização estudantil.
Mas a coisa pode de facto estar meio complicada no bastião progressista desta nação - e falo dos campus universitários americanos em geral. "The Nation" publicou há duas semanas um retrato do estado do 'activismo liberal' nas universidades americanas. Derrotado a toda a linha na contestação à guerra, o ponto de partida (2004-2005) era desastroso:
Today's campus right is unified, on-message and passionate--in other words, part of a genuine movement. By contrast, the campus left is disparate, undisciplined and segmented along ideological and issue-based lines.
Até no monopólio sobre o uso de 'ironia' e 'humor' (em sentidos radicalmente diferentes) a esquerda está a ser derrotada (the Nation dá estes exemplos: "affirmative action bake sales where white students are charged more for cookies than blacks, for instance, or immigrant hunts where students dressed in Border Patrol uniforms chase targeted "illegals" with water guns.")
Mas a cavalaria chegou e a classe liberal americana está a começar a injectar dinheiro nas 'causas progressistas': "Isn't that a bit like pumping sand into the Mojave Desert?", perguntou um crítico do Washington Post em 2004 (artigo The nation aqui). Será?

4.
Tariq Ali veio hoje ao campus. E desta vez eu estava lá, na Casa Internacional. Sala grande 'bem composta' (quem fala politiquês sabe o que quero dizer). Comprei a biografia dele dos anos 60 ('street fighting years'), é possível que escreva alguma coisa aqui sobre ele noutro dia. Falou do recrutamento militar at lenght (em referência discreta aos estudantes presos, como admitiu em Q&A). O recrutamento é de longe o campo de batalha fundamental para combater a guerra fora dela (e pensem nos filmes do Michael Moore, algures entre os bairros deprimidos de Flint, Michigan; neste momento, abana-se o cartão de nacionalidade e bolsas de 25.000$ para convencer batalhões de hispânicos, nascidos fora dos EUA).
Mas estes recrutas não vieram aqui para recrutar: vieram à Univ Chicago para fazer cumprir a "Solomon Amendment", que dá ao 'Secretary of Defense" o direito de negar dinheiro federal às universidades que não permitam o recrutamento nas suas instalações (corre em tribunal o processo Rumsfeld v. FAIR). Se tal acontecesse a Universidade de Chicago perderia, por exemplo, a licença especial que mantém para investigação e pesquisa com Cuba (uma preciosidade nos states, acreditem).

Hoje Tariq Ali voltou à raíz de tudo isto: "sometimes we aren't aware that we're at war". Tariq Ali só disse o óbvio, mas às vezes é importante repetir o óbvio.

Any comments?

8 comentários:

A. Cabral disse...

1. o tipinho - Tucker tem um arinho mesmo pintas!

2. Quem estuda a historia da New Left e segue no estudo para o desastre que foi o fim dos anos 70 e os anos 80, fica algum espanto em ouvir que estes protestos contra o recrutamento militar ainda acontecam... Podias ir mais longe e mais claro e dizer que o senhor Rosenberg anda com estrategias pouco dignas. Tirar a cartada do genocidio nazi para atacar pela direita um protesto em tudo justificado, e' deploravel.

3. Usas "liberal" no sentido Americano certo, na linha do progressismo dos anos 30 que tomou novas formas nas administracoes democratas de Kennedy e LB Johnson nos anos 60?
Nao quero puxar argumentos de autoridade mas isto foi coisa que estudei: "Há quem diga que a esquerda radical americana se refugiou na academia a partir dos anos 70." A unica que se enterrou na academia foi aquela que nasceu na academia. E mesmo essa fez e faz incursoes ao mundo real, political education, pasquins varios. Houve muitos arrependidos. E muitos, muitos, muitos mais, que manteram conviccoes moderadas no sentido ideologico e radicais em materias de costumes e liberdades perante o Estado, algo que o neo-liberalismo soube converter em partes...

A historia do pos-modernismo nao tem de ser a historia de uma importacao francesa? E' claro que os proponentes americanos sao dessa geracao de 60, 70, mas a motivacao nao sei se foi a derrota na batalha com a direita, se produto de convulsoes entre as familias do socialismo, com o cansaco do sectarismo. Ainda e' cedo para fazer esta historia parece-me...

4. E como e' a biografia do Tariq Ali? Ele as vezes irrita-me de tantas poses que faz...

Miguel Caetano disse...

A propaganda "activista-liberal" às vezes é tão mentalmente poluente como a propaganda neocon. Já não tenho paciença para o discurso coitadinho do revoltadinho que protesta contra o "bias" dos grandes media comerciais, FOX e talk radio à cabeça. E depois a guerra... OK, é uma calamidade, o Bush é um imbecil comandado por poderes ocultos, existe vigilância por todos os lados, cortes nos direitos e liberdades civis, etc.

Mas os progressistas americanos passam o tempo todo a denunciar e a criticar o que vai mal na América e não apresentam alternativas e acabam sempre por apoiar, por portas travessas, parte da origem desse mal, isto é, o mundo corporativo, como consumidores ou mesmo empregados.

O sector activista mais radical - dos media tácticos - também cai nessa armadilha da posição oposicionista e meramente reactiva, ainda que de uma forma irónica, gozona e satírica.

Na verdade, a esquerda americana limita-se a seguir ao contrário tudo o que a direita faz. Não tem uma agenda própria. Não havia qualquer problema se a incursão na academia tivesse sido produtiva, mas todas as pistas indicam o contrário: o refúgio num discurso hermético, a defesa muitas vezes "paternalista" das mesmas "minorias" - ou maiorias? - de sempre ditam o afastamento do americano trabalhador médio que vota Bush. É tudo em circuito fechado.

Quando eu falo numa agenda própria, falo em desenvolver contactos com a sociedade civil de modo a fomentar a democracia participativa a nível local; apresentar políticas concretas no domínio da economia solidária e inclusão digital; unir os trabalhadores precárias ou desempregados; apoiar iniciativas locais de produção cultural e mediática pelos próprios cidadãos - tudo isto, passando se possível ao lado do mercado, de uma forma autónoma e auto-gerida, verdadeiramente "grass-roots", de baixo para cima.

A. Cabral disse...

Em defesa da qual talvez me arrependa, do radicalismo Americano, nao e' este:
"desenvolver contactos com a sociedade civil de modo a fomentar a democracia participativa a nível local; apresentar políticas concretas no domínio da economia solidária e inclusão digital; unir os trabalhadores precárias ou desempregados; apoiar iniciativas locais de produção cultural e mediática pelos próprios cidadãos - tudo isto, passando se possível ao lado do mercado, de uma forma autónoma e auto-gerida, verdadeiramente "grass-roots", de baixo para cima."
o programa do participatory economics/economy do Michael Albert e da Zmag. O MA era lider da associacao de estudantes do MIT em finais de 60 e inicios de 70, mas e tb verdade que nao fez, e tanto quanto sei nao tentou carreira academica.

Danu Blau disse...

quando uso o termo 'liberal' faço-o no sentido em que é usado aqui, para definir o debate da política americana. É um termo que não clarifica e só confude, mas para todos os efeitos é o que continua a designar (inclusivé pelos próprios) este campo à esquerda, que vai dos democratas progressistas às franjas do anarquismo e da extrema-esquerda. Uso-o num sentido inclusivo.

O pós-modernismo=geração militante era uma pergunta em voz alta. Não há muito seguimento a dar-lhe, pois pós-modernismo há muitos. Mas tem o seu q de pertinente, se pensares no esvaziamento da acção política, em agência não-transformadora, no estilhaçar das 'modernidades' e por aí em diante. Gente pessimista e desiludida.

Quanto aos problemas da esquerda, francamente não tenho uma solução - no diagnóstico concordaremos (a começar no grave problema de representação parlamentar neste país; já não sei se concordo contigo, Miguel, na crítica que fazes da denúncia das grandes corporações de media). Mas sinto que estes problemas não são só daqui, não viesse eu de 'tugal. Mas há sinais de esperança, não fosse eu também um eterno optimista.

Danu Blau disse...

A. Cabral, bio Tariq Ali: O tipo é vaidoso à brava, como sabes, mas estou a gostar e a aprender algumas coisas novas. Faz-me confusão a defesa intransigente que faz de Cuba e Venezuela (quer no livro quer na lecture), mas isso é outra discussão. Quando acabar digo qq coisa.

spartakus disse...

ahh bem,,,bom dia.

A. Cabral disse...

"se pensares no esvaziamento da acção política, em agência não-transformadora, no estilhaçar das 'modernidades' e por aí em diante. Gente pessimista e desiludida."

Como dizes ha muitos pos-modernismos, nem todos sao pessimistas e recolhidos. Por exemplo os feminismos que partem das criticas foucaultianas da construcao do corpo. Outro exemplo que me e' mais proximo sao os posmodernos do Rethinking Marxism, estes que em teoria economica se bateram com os mais materialistas. Enquanto os materialistas "recanted", os posmodernos continuaram activos em campanhas no New Green Party, et al...

Em tugal ha um preconceito enorme com os posmodernos porque so' o conhecemos vindo da direita, mas ai nao vi qual e' o pecado pos-moderno, nao e' nenhum monolito e pudemos usa-lo a bom proveito.

Abraco

kojak disse...

Did you know Tucker Max is being sued, AGAIN!? Check my blog for more information.