terça-feira, janeiro 31, 2006

é tempo de ir à lua e voltar

A TRIP TO THE MOON: 7 FRAGMENTS FOR MELIÈS
(imagem tirada daqui) Enquanto este blog muda e não muda fui a um encontro de estudantes (seríamos uns 20, grande parte de antropologia e/ou africanistas) com William Kentridge. Se a vossa reação for a mesma que a minha, até saber que ele cá vinha, perguntariam: quem é William Kentridge?

William Kentridge
Sem me querer armar em erudito (o que sei sobre a vida deste artista aprendi pela net e no encontro com ele), posso dizer que é o artista sul-africano mais conhecido no mundo. Ser branco sul-africano, durante o apartheid - altura em que começou a 'internacionalizar-se' - foi o menor dos problemas, como disse hoje. O facto de usar um trabalho monocromático e de se recusar a mudar para NY foram entraves bem maiores. Nasceu onde ainda vive hoje, Joanesburgo.

Em termos de estilo e técnica, é conhecido sobretudo pelas suas pinturas a carvão, montagens que recuperam o prazer de ser 'enganado' (agora conscientemente) como em truques de magia ou nos primeiros dias do cinema.

Georges Meliès fez na sua época um condensado destas técnicas, e não é à toa que William Kentridge usou o seu trabalho. Antes de se tornar um respeitado fazedor de filmes, Meliès era um mágico de profissão. E é precisamente nessa capacidade de enganar o olho (o Benjamin fala no inconsciente óptico) que Meliès usa o cinema. Desde Un Homme de Têtes(1898) passando pelo mais conhecido Le Voyage à La Lune (1902) que Meliès faz uso de coisas tão simples como truques de montagem para provocar o espectador. Com Meliès, o cinema deixou de ser um instrumento estático de apreensão do real (planos únicos, fixos etc).

Meliès produziu centenas de filmes, mas a Viagem à Lua tornou-se a sua obra emblemática. A imagem da lua, de olho esventrado por um 'foguetão', ganhou vida própria.
Nestes "7 fragments for Meliès" (exibido a seguir ao encontro), Kentridge brinca com a ideia de movimento (andando com a imagem para trás), traços de carvão que se apagam e voltam a aparecer, efeitos teatrais ou sombras. Tecnologia muito pouco requintada, mas com um poderoso efeito visual. O seu estúdio é o foguetão de Meliès, pondo formigas a desenhar histórias que na verdade são estrelas (imagem ao lado), numa lua de estranhas sombras.

Na parte que me toca, interessou-me o regresso a esta noção básica de 'enganar o olho' de quem vê estes fragmentos - sobretudo pelo recurso a uma tecnologia que já existia com Meliès. É nesta relação estranha entre magia e tecnologia que ando agora a pensar, para um research paper. É que há um pormenor muito revelador sobre a Viagem à Lua de Meliès: os exploradores franceses que chegam à lua (Marte na versão americana) encontram-se com...africanos de uma tribo selvagem. Está tudo ligado.

"7 fragments for Meliès" foi concebido em 2003 para uma exposição na Suécia. Já rodou meio mundo mas hoje foi provavelmente das primeiras vezes em que o autor comentou o conjunto em pessoa. Vi estes pequenos fragmentos - pequenos clips de um ou dois minutos - numa sala de cinema. Originalmente, deveriam ser projectados em simultâneo numa única sala. Para uma visão de conjunto ver aqui.

Alguns filmes de Meliès estão disponíveis online. Alguns exemplos:

Un homme de têtes (1898, 1 min) aqui
Le Voyage à la Lune (1902, 11 min) aqui
Le diable noir (1905, 4 min) aqui
Filmografia de Meliès aqui

Algumas imagens de Kentridge aqui
E um bom resumo do seu trabalho e vida aqui

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