sábado, janeiro 07, 2006

en plus, je sens l'odeur de la mort


Não me convenci com Pierrot le fou ('65).
Apesar de uma técnica impressionante (todas as cenas no apartamento em Paris são memoráveis) e de brutais composições visuais, Godard não me convenceu aqui. Vamos lá ver, claro que é um filme a não perder por nada e quem sou eu para criticar um filme destes? Mas do ponto de vista de prazer estético e visual (e dentro do mesmo registo road trip, ainda que feito 10 anos depois), identifico-me muito mais com The Passenger (Profissão:repórter), de Antonioni ('75):
Jack Nicholson (no topo criativo da carreira, entre Chinatown e Voando sobre um ninho de cucos) e Maria Schneider (último tango em Paris) arrasam com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina (Ferdinand / Pierrot e Marianne); os pormenores de fotografia e realização são incomparáveis (admito algumas limitações técnicas do filme de Godard de 1965, sobretudo ao nível do som, mais quand même). E depois há uma diferença abissal do ponto de vista do argumento: em Pierrot le Fou, Pierrot e Marianne deixam-se seduzir pelo glamour decadente da cote d'azure no seu despojamento anacronicamente hedonista. Este percurso é acompanhado por um guião paupérrimo (diz-se que até nem houve guião neste filme) e diálogos monótonos com punch-lines geniais (o l'odeur de la mort será um; on quitte paris par une voie-unique, outro). Em The Passenger, toda a experiência on the road é sublime, e o argumento reflecte questões essenciais do pensamento antropológico, social e cultural actuais.

E isso faz, para mim, toda a diferença.

1 comentário:

Dicatombe disse...

Deixa estar... já és convencido por natureza :))