segunda-feira, janeiro 23, 2006

clube dos poetas mortos

O PROFESSOR

A isto os linguistas chamam inhabiting the message. Lembrei-me do clube dos poetas mortos a caminho da universidade esta noite. Pelas alas neo-góticas do campus a caminho da universidade (a fixação que esta gente tem por esse universo cambridgiano roça o paroquialismo) a associação parece imediata mas ocorreu-me hoje pela primeira vez. Nunca pensei conjugar presidente e cavaco na mesma frase. Mas assim será: o 'professor' cavaco silva é o novo pai da pátria, carregado em ombros pela maralha que vê nele a concretização do sonho da "califórnia da europa". Nos próximos 10 anos tenho neste tipo um bom motivo para não pensar sequer em regressar.

O POETA

Foi Manuel Alegre que lixou as contas ao Bloco. Se Alegre não tivesse concorrido, Louçã teria facilmente subido dos 10%. Soares continuaria a ser o grande beneficiado. Acompanhei a campanha com as limitações de quem está no estrangeiro, mas pelo que vi este tipo foi um desastre completo - em muitos casos mais à direita que Cavaco. Easy come, easy go e agora voltará a ser o burocrata parlamentar que era. Mostrou o peso que vale, dedicar-se-á à poesia e a escrever as suas memórias.

JOVENS MP3

A senilidade é triste, e mais ainda é ver Soares desbaratar assim a sua memória. Mas na parte que mais me diz respeito, a grande derrotada é Joana Amaral Dias. Conheci-a quando andava nos jovens do bloco e ando por onde ela andou há uns tempos. Tenho pois uma afinidade - geográfica e, até há pouco, política - com esta mulher. E fez-me confusão o papel que decidiu assumir e a forma como se colou à corte soarista. Já aqui falei do seu papel de porta-voz do PS e das minhas embirrações com JAD. Agora digo que está em maus lençóis: indesejada no bloco e agarrada a um soarismo que morreu hoje. Não fará parte de novas listas do bloco; resta saber se entrará nas listas do PS daqui a 4 anos. A acontecer, seria a confirmação do pior do carreirismo e oportunismo. Até lá, acabou para a política.

17 comentários:

Anónimo disse...

Não é verdade que o Alegre tivesse posições mais à direita que o Cavaco. O que mais te irrita, e desculpa lá a franqueza, é a disputa de um espaço, que muito à maneira do PCP, o Bloco reclama como seu. É verdade que a campanha do Alegre girou muito em volta da personalidade do seu candidato, mas não se pode esquecer que era precisamente o único eixo de rotação possível da campanha. Não havia partido, não havia grandes personalidades, não havia história, havia alegre. Tendo assistido a um comício do movimento já, e não sendo,como é óbvio, apoiante do alegre, assisti a um episódio que me fez lembrar alguns comícios do bloco. Girava em volta de tal de Zeca Afonso e dizia-se: "Se fosse vivo, hoje estaria aqui". Todos diferentes, todos iguais

Amaral Dias disse...

A Joana é linda!

Miguel Caetano disse...

OK, reconheço: a campanha e a retórica do Manuel Alegre podia ter sido bem melhor. Por outro lado, devia ter avançado logo, mesmo sem o apoio do PS. Mas eu votei nele, assim como mais um milhão de pessoas, por acreditar que ele dava um excelente Presidente da República. Na verdade, o discurso patriótico dele só tem sentido quando aplicado a um cargo como o do PR. Era o homem perfeito para o lugar, pois não ia desempenhar nem mais nem menos funções que as que lhe estão estipuladas. O PR é o único garante do vestígio que é a soberania nacional, face à União Europeia. O Louçã, por seu lado, estava a concorrer para as legislativas, assim como já aconteceu nas autárquicas.

O Manuel Alegre trouxe um pouco mais de utopia à política portuguesa. Não estava agarrado a uma máquina partidária. E isso é bom, por mais que se diga que ele sempre foi um membro do aparelho do partido. Representa o outro lado do fenómeno dos Isaltinos e das Fatinhas. Abre uma esperança de uma maior democracia participativa.

Acho que os do Bloco deviam passar a tomar mais atenção à sociedade civil e não escolherem sempre os mesmos para todos os cargos. Porque um milhão de pessoas é muita coisa, é muita gente que está descontente com o Sócrates e os seus boys, mas também não se revê sempre nas políticas cada vez mais partidárias, mais fechadas e auto-excludentes do Louçã e companhia...

Danu Blau disse...

isso de não haver personalidades na campanha do alegre parece-me um bocado estranho. O ALegre foi um aparelhista partidário toda a vida e não foi à toa que montou esta campanha em tão pouco tempo. E entre Da weasel, Cunhal, Torga, Sousa Franco etc ele lá foi tentando rodear-se da sua corte. E agora voltará ao PS, bradando ao vento que passa.

o Alegre não é um tipo novo na política e tem mais anos disto que qualquer outro dos candidatos (tirando o soares). Votou com o PS todas as medidas que agora dizia criticar e logo aí condena qualquer renovação. Embora, como diz o Miguel Caetano, muita gente (não sei o que isso de sociedade civil) tenha votado nele por esse motivo.

Anónimo disse...

as imagens tão engraçadas, foste tu que mexeste nelas?

Piri disse...

A propósito de JAD... Hoje em declarações à Lusa ela diz que vai voltar à política activa... no Bloco de Esquerda. Segundo JAD, o facto de apoiar Soares não significa que deixa de ser militante do Bloco e que foi apenas Miguel Portas que alguma vez defendeu a sua expulsáo do partido. Mais, a JAD diz que vai estar presente na próxima reunião, quando o assunto presidenciais estiver já esfriado.

Anónimo disse...

Esse é provavelmente parte do problema. A noção de sociedade civil é tão pouco conhecida em Portugal como é discutida no resto do mundo. As expressões desse espaço têm se modificado ao longo do tempo.

Mas aquilo que importa salientar na campanha do alegre é o facto de ter conseguido mais votos que qualquer outra candidatura apoiada por partidos (tirando cavaco, claro). A mensagem transmitida não deixa de ser recheada por algum populismo, ao estilo Santana Lopes ou Paulo Portas. No estado em que estamos, qualquer crítica mais ou menos velada aos políticos profissionais encontra imediatamente sustentação.

É óbvio que Alegre pertence ao aparelho, que votou orçamentos e projectos-lei consoante a orientação de voto. Mas aquilo que deve preocupar verdadeiramente a esquerda é onde falha para não conseguir capitalizar esse descontentamento.

Ou seja, a entrada no jogo democrático descredibilizou estas alternativas de tal forma que a esperança se encontra nesse tipo que "tem mais anos disto que qualquer outro". Isto parece-me especialmente relevante para o Bloco de Esquerda, partido com a bonita idade de 6 (ou 7!) anos que, tirando louçã, vai cada vez mais perdendo esse espaço que a mim me parece fundamental, a sociedade civil. O termo pode ter uma conotação meio pesada (vindo de onde vem) mas essa parece-me a âncora mais importante de conseguir. Não nos enganemos, a sociedade civil é tudo o que resta. Os sindicatos vão, lentamente, na companhia dos partidos, sofrendo um processo de erosão. É muito significativo que portugal tenha a mais baixa taxa de sindicância ao nivel europeu, recordando que foi dos países que mais tarde teve a possibilidade de constituir sindicatos.

Com tudo isto, a minha interpretação da "alegria" das últimas eleições vai no sentido de um conjunto de equívocos que a esquerda em Portugal tem assumido. Não digo que alegre tenha sido a representação do voto de esquerda, mas sim que há algo aí para ser aprendido. Não me convencem com a estória do eleitorado do PS dividido que apenas serve para desviar as atenções. Há algo estruturalmente errado e muito pouco esforço tem sido feito para reconhecer o erro.

ufa, ja chega!

Danu Blau disse...

Piri: vi isso, e acho mal. Das duas uma: ou os partidos servem para alguma coisa ou não servem para nada (e até posso achar que não me sirvam, mas isso é outra conversa). Eu só acho que um partido é útil como instrumento democrático de convergência colectiva (comunicacional, 'ideológica', organizativa etc). Não defendendo a expulsão de ninguém, há um princípio de solidariedade nos partidos que não pode ser quebrado; caso contrário, torna-se uma colectividade para jogar cartas de vez em quando (ou um trampolim para outros voos). Não podemos criticar o obscurantismo no funcionamento dos partidos sem que a nossa própria atitude seja clara. Ou não achas confuso uma ex-deputada do bloco ser de repente apoiante de um candidato oficial do PS?

E não me entendas mal. Não foi à toa que me fui afastando do bloco. Achei que já não podia satisfazer esse princípio. E no caso concreto da JAD, ela escolheu o seu campo. É que a esquerda não se dividiu nestas eleições: simplesmente aglomerou-se nas suas diferentes expressões partidárias. E a JAD escolheu a sua. Vale 14%.

Será isto puro leninismo?

Danu Blau disse...

ao anónimo que comentou aí atrás.

Queres ser um pouco mais específico em relação às políticas fechadas e auto-excludentes do Louçã e Ca.? Queria perceber melhor o que queres dizer com isso.

De qq modo, ainda está para ser inventado um medidor da pulsação da sociedade civil. é um termo que está na boca de politólogos, sociólogos de vão de escada e fazedores de opinião, e por isso é muito fácil cair na tentação de ver 'sociedade civil' como algo que tenha existência real. Reificar o termo, se quiseres.

Acredito que muita gente tenha visto no resultado do Alegre o sintoma de erosão partidária. Mas então como me explicas que há uns meses atrás o PS tenha ganho com maioria absoluta? Ou mesmo que o cavaco ganhe agora com maioria absoluta?

Não sei se o bloco está a perder influência junto de movimentos sociais (sociedade civil?). Sei que quando saí de portugal esse era o maior desafio que se colocava ao bloco: como conciliar a participação activa em movimentos sociais e em associações autónomas com a necessidade de crescer em termos de 'aparelho' e implantação no terreno.

De qq modo a esquerda está na merda. Sócrates é um populista retardado, Cavaco é um conservador tecnocrata. E não é o Alegre que vai fazer a diferença...

Miguel Caetano disse...

Hoje já ouvi a Maria José Nogueira Pinto a dizer que não é o Alegre que vai fundar um novo partido, mas sim o Sócrates... E lembrou que este já foi militante da JSD... UiUi...

Danu Blau disse...

miguel, podes mandar-me um mail para fcalvao_at_uchicago? Estou a acabar um projecto que é capaz de te interessar (se tecnologias de resistência for a tua cena). Se não fores o mesmo miguel caetano esquece este pedido.

Anónimo disse...

"sociedade civil. é um termo que está na boca de politólogos, sociólogos de vão de escada e fazedores de opinião, e por isso é muito fácil cair na tentação de ver 'sociedade civil' como algo que tenha existência real."
só faltava essa, irra. vocês antropólogos são todos iguais.
Mas gostava de lembrar que é um termo anterior a qualquer dessas posições e fundamental na génese dos movimentos sociais europeus. mas afinal de contas eu apenas pertenço à categoria de "´polítologos e sociologos de vão de escada". Se fosse de antropologia ou história seria diferente. irra!

João disse...

"Sociedade civil" é um termo castrense com origem nos tempos em que a política era determinada pelos militares. Estranho a sua utilização e associação a alguém que é, há anos, vice-presidente da Assembleia da República e deputado desde 1974. "Movimentos sociais" será o mote de que Alegre foge como o diabo da cruz. É que na ficção do país republicano que ele alimentou nesta campanha, eles não existem, não têm caderno reivindicativo, não contam. Talvez por isso a crítica de direita à candidatuira de Louçã tenha passado tão entranhado tão bem a almas de esquerda: é que falar de desemprego, sustentabilidade da segurança social ou dos crimes ambientais que se vão irresponsavelmente cometendo não seria função de um candidato presidencial. Temos então parcelas da realidade do país de que um Presidente não deve ou não pode falar e ter opinião. Tudo a bem dos candidatos do centro político que não tiveram, nem podem ter, respostas para os temas fundamentais do futuro colectivo.
E chamem-me antropólogo que não é vergonha nehuma!

Anónimo disse...

Estou louca por saber que é que se vai passar agora como o Alegre dentro do PS, onde não poderá fazer o mesmo discurso de caçadeira, patria e narcisismo que fez para o povo.Será possivel que haja tanta gente a votar no gajo depois desta figura infame?E pensam que ele daria um grande presidente da República???então acho que não vimos a mesma campanha

Danu Blau disse...

Anónimo irritado com antropólogos: vais-me dizer em que é que 'sociedade civil' foi fundamental na génese dos movimentos sociais europeus. Podemos usar um caso muito concreto: aborto e a campanha do referendo de 98.

O que é foi aí a sociedade civil e movimentos sociais? Ou é à toa que se discuta agora a criação de um movimento 'cidadania' e se proponha o Alegre para seu porta-voz, precisamente para voltar a esse debate? É isto a sociedade civil?

Anónimo disse...

Um erro repetidamente cometido é a tendência de analisar a génese de movimentos sociais na premissa do sucesso. Tão relevante como exemplos bem sucedidos são as experiências falhadas. Tanto um como outro são passíveis de extrapolação para compreender um bocadinho melhor isso que é a sociedade civil. Este conceito, para mim, define acima de tudo o espaço comum partilhado por uma determinada comunidade. Caracteriza-se pela iniciativa e mobilização com um determinado fim político. A sociedade civil é tão mais forte quanto os pontos de interligação entre os indivíduos da comunidade. Os pontos podem ser associações recreativas ou, numa perspectiva mais exigente, movimentos sociais. As opiniões individuais são discutidas com aqueles que nos são mais próximos e, por isto, sociedades que tenham maior expressão de movimentos associativos são normalmente mais "civis".
o meu argumento sempre foi de preocupação para com a esquerda portuguesa que perdeu esse espaço de maior mobilização para o Alegre nesta eleição. Quer isto dizer que para a maioria das pessoas a mensagem que passa de partidos do centro não é substancialmente diferente dos outros. O alegre não avançou pela negação da política, como cavaco, mas pela negação da lógica partidária tal como ela é entendida e transmitida entre todos. Defendi que isto deve ser preocupante para o BE porque sempre tentou defender uma certa imagem de diferença. O facto de não ter um líder (até há bem pouco tempo), não ter uma juventude partidária, era disso reflexo.
Não apoio Alegre nem apoiarei. Apenas lhe reconheço um certo sucesso onde me parecia muito mais importante que outros fossem bem sucedidos. Nomeadamente aqueles que têm alternativas em relação aos problemas com que hoje nos confrontamos.
Quanto ao exemplo, perfeitamente aleatório, que escolheste,a sociedade civil (caramba, estou farto de usar estas palavras) estava lá. Se não foi mais activa haverá uma explicação. O pior é que se calhar até foi, embora não da forma que nos agradaria.
E para rematar só gostava de dizer que não estou zangado com os antropólogos. Têm um contributo tão válido como outro qualquer. Mesmo os "politólogos" (mero acaso!) têm também alguma coisa a acrescentar.

Danu Blau disse...

ok, anónimo, só estamos em desacordo em relação a uma coisa. Eu não vejo a mobilização em torno do alegre como uma manifestação da 'sociedade civil'. Porque raio é que um votante no Jerónimo ficaria automaticamente desclassificado desse campo de intervenção, para pegar num exemplo à toa?

Um conceito nunca pode ser definido pelo que exclui.